Introdução
Proposta para o local da chegada do descobridor do Rio Vermelho.
A proposta do Memorial Caramuru, idealizada pela Academia dos Imortais do Rio Vermelho (Acirv), foi concebida com dois objetivos. O primeiro para lançar um facho de luz na figura do Descobridor do Rio Vermelho. O segundo como chamamento da atenção das autoridades, para a necessidade do resgate da memória deste personagem ímpar, Patriarca da Bahia, mediante a transformação do sítio da sua chegada (no Rio Vermelho em 1509) num centro histórico-cultural-turístico.
Diogo Álvares Corrêa, de historiografia tão escassa, mas de uma vida recheada por fatos relevantes, foi protagonista de uma epopéia, onde o real e a fantasia se misturaram, numa simbiose de mistérios e lendas, que criaram uma aura de magia em torno de um homem tido como português, mas que pode ter sido espanhol.
O Caramuru, nome do batismo tupi, foi o primeiro habitante branco do território que faria parte da primeira capital brasileira. Primeiro poliglota da Bahia, falava português e galego, idiomas gêmeos da região natal, no noroeste da Península Ibérica, dominava o francês, utilizado nas articulações comerciais, e o tupi, a língua da terra adotiva, onde se tornou um semideus. Foi também o iniciador da miscigenação do branco com o índio, sendo o patriarca das primeiras famílias caboclas (mamelucas) da Bahia, quiçá do Brasil. Enfim, constituiu-se no fundador da primeira povoação onde ocorreu a efetiva integração entre as duas raças, o que não foi conseguido pelos degredados inicialmente deixados na terra de Vera Cruz, primeiro nome dado ao Brasil.
A história de Diogo Álvares é de uma riqueza fantástica, verdadeiramente fascinante. Aventureiro de chegada espetacular, adaptou-se ao modus vivendis dos nativos, revelou-se homem de conduta sensata, muito comedido, exímio articulador e portador de uma liderança inquestionável e carismática. Nunca entrou em choque com os chefes da terra, nem com os colonizadores. Conhecia os limites dos índios e as ambições dos brancos.
Caramuru tinha plena consciência de que o Atlântico Sul seria colonizado pelos europeus, da França, Espanha ou Portugal. Dentro dessa visão, atuou como elemento moderador, que apoiava os interesses dos brancos, mas defendia os índios contra os abusos dos colonos. Enfim, foi um homem predominantemente de paz, muito respeitado pelos nativos e forasteiros.
Na terra que adotou como pátria definitiva, Caramuru morou em três locais: primeiramente nas proximidades da enseada da Mariquita, no Rio Vermelho; depois na enseada da entrada da Baía de Todos os Santos, que ficaria conhecida como Porto de Caramuru, depois Porto do Pereira, atual Porto da Barra; e finalmente no outeiro onde construiu a Igreja da Graça.
Desse rincão somente se afastou em duas ocasiões. A primeira em 1527, quando foi à França, em missão comercial, para uma longa permanência, juntamente com a amada Paraguassú, levados por Jacques Cartier. É possível que Caramuru acreditasse piamente no controle do Atlântico Sul pela colonização francesa, tal era a quantidade de embarcações da França que apareciam na terra dos tupinambás, gerando um sólido comércio de escambo com o pau-brasil. A outra viagem ocorreu em 1546, quando foi à Capitania de Porto Seguro, em missão política. Nessa época já tinha a certeza de que o Brasil pertencia efetivamente a Portugal.
Com o falecimento de Caramuru, em 5 de outubro de 1557, na capital do Brasil, os índios perderam o seu grande interlocutor e protetor. Mas o sangue de Diogo Álvares Corrêa não se extinguiu. Misturado ao tupi de seus descendentes, corre hoje nas veias de milhões de brasileiros. Ao se aproximar dos 500 anos da descoberta, a herança e a lembrança de Caramuru continuam mais vivas do que nunca.
Porém, o local da sua chegada encontra-se abandonado e a caminho da favelização total. Torna-se urgente, em nome da história, que esse importante sitio seja recuperado e valorizado, com um projeto amplo, que contemple a reurbanização da área, casada com a implantação do Memorial Caramuru.
Diretoria da Acirv.